Uma larva de 3,9 mm encontrada na Amazônia acende alerta de invasão

  • 25/03/2026
(Foto: Reprodução)
Uma larva de 3,9 mm encontrada na Amazônia acende alerta de invasão Um estudo científico registrou pela primeira vez uma larva do peixe-leão invasor na Plataforma Continental do Amazonas. O achado indica que a espécie já está se reproduzindo na região, derrubando a antiga hipótese de que a pluma de água doce do rio funcionaria como uma barreira natural contra o predador. A espécie já devastou recifes no Caribe e nos Estados Unidos. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Onde o gigante Rio Amazonas encontra a imensidão azul do Atlântico, um filtro invisível de água turva e baixa salinidade sempre serviu como uma sentinela da biodiversidade brasileira. Por décadas, acreditou-se que essa "pluma" de água doce fosse uma barreira intransponível para espécies marinhas do Caribe. Mas a sentinela cochilou — ou melhor, o invasor aprendeu a atravessar o posto. O estudo contou com a colaboração dos pesquisadores Paula Campos, Igor Hamoy e o mestrando Lucas Corrêa, registrou a primeira larva do peixe-leão-invasivo (Pterois volitans) na Plataforma Continental do Amazonas (ACS). O espécime, um minúsculo habitante de apenas 3,9 milímetros e estimadamente 9 dias de vida, é a prova biológica de que o "ciclo se fechou": o peixe-leão não está apenas de passagem; ele se estabeleceu e está se reproduzindo no Norte do Brasil. Uma larva de 3,9 mm encontrada na Amazônia intriga cientistas Divulgação/ reabic.net/journals/bir/2026/1/BIR_2026_Pantoja_etal.pdf VIU ISSO? Executivo larga mercado financeiro e cria refúgio na Mata Atlântica Ave renasce em região da Caatinga onde foi extinta há mais de 100 anos Gigante dos rios viaja quase 900 km e impressiona cientistas: 'emocionante e inspirador' Fim do 'mito' da barreira natural Historicamente, a ciência tratava a foz do Amazonas como um escudo. A descarga colossal de sedimentos e água doce criava condições adversas para peixes que dependem de salinidade alta e águas cristalinas. Contudo, o peixe-leão provou ser um mestre da adaptação. "Atualmente, sabe-se que a pluma formada pela descarga fluvial do rio Amazonas funciona como um divisor de áreas, formando um sistema heterogêneo. Características físicas, como a turbidez e químicas, como a salinidade e concentração de nutrientes, separam espécies de acordo com sua capacidade adaptativa", explicam os pesquisadores no material enviado ao Terra da Gente. Segundo os especialistas, a pluma agora é vista mais como um filtro do que como um muro. "Não bloqueia totalmente a entrada e permanência de espécies marinhas, mas ainda sim restringe algumas". O peixe-leão, contudo, possui o "passaporte" biológico para ignorar essas restrições. Foto de um peixe-leão matteobellu239 / iNaturalist O 'RG' de um invasor O detalhe que mais assusta a comunidade científica é a idade e o estágio de desenvolvimento do exemplar encontrado. Com menos de 4 milímetros, a larva estava no chamado "estágio de flexão", com as nadadeiras ainda em formação. Isso significa que ela tinha baixíssima mobilidade e não teria força para nadar distâncias continentais vindas do Caribe. "Nesse estágio de desenvolvimento larval, uma larva carreada da costa caribenha encontraria o sistema de retroflexão da Corrente Norte Brasileira (CNB) como uma barreira física para sua dispersão. Portanto, a presença da larva evidencia um resultado de reprodução ativa da espécie já adaptada na região", afirmam. Peixe-leão é um dos predadores mais perigosos na costa de países invadidos kentross / iNaturalist A descoberta foi um triunfo da tecnologia sobre o desgaste do tempo. Como o espécime estava levemente danificado, a morfologia visual permitiu chegar apenas à família do peixe. Foi necessário o uso do DNA Barcoding — uma espécie de código de barras genético — para confirmar com 100% de precisão que se tratava do temido invasor. Risco ao "ouro negro" dos recifes amazônicos O avanço desse predador coloca em xeque um dos ecossistemas mais misteriosos e exuberantes do planeta: o Grande Sistema de Recifes da Amazônia (GBA). Trata-se de uma região de corais e esponjas que vivem sob a pluma do rio, abrigando espécies que não existem em nenhum outro lugar do mundo. O risco é classificado pelos pesquisadores como "alto e iminente", podendo resultar em um "desastre ecológico previsível". Peixe-leão está na costa brasileira coconut-etiennus / iNaturalist "O peixe-leão é extremamente adaptável, resistente a variações de salinidade e temperatura e sua desova ocorre durante o ano todo. Essa alta taxa reprodutiva, somada à ausência de predadores naturais no Atlântico, permite que a espécie se multiplique rapidamente, causando grande desequilíbrio ecológico". Em áreas de berçário, o invasor é um "buraco negro" de biodiversidade: devora larvas e juvenis de espécies nativas antes mesmo que elas tenham chance de crescer. Isso inclui peixes de alto valor comercial, como garoupas e pargos, o que ameaça diretamente a subsistência de milhares de famílias que dependem da pesca artesanal. É possível vencer a invasão? A pergunta que fica para os gestores ambientais é amarga: ainda há tempo para expulsar o peixe-leão? Para os autores do estudo, a resposta exige realismo. "Quando se trata de uma espécie com alto poder adaptativo e grande potencial de dispersão, uma erradicação a esse ponto se torna praticamente impossível", alertam. Onde foi encontrado o peixe-leão Divulgação / estudo O foco agora deve ser o manejo e a contenção. Os pesquisadores defendem a criação urgente de um plano de controle populacional para mitigar os efeitos adversos. Mais do que isso, pedem investimento em ciência: "Precisamos de mais investimentos em estudos de ictioplâncton na costa norte brasileira para que possamos compreender em maior escala como e quanto a presença da espécie está afetando direta e indiretamente o ecossistema". A larva de 3,9 mm pode ser pequena aos olhos humanos, mas o seu impacto é gigante. Ela é o sinal de que o mar da Amazônia mudou, e agora, a corrida é para garantir que nossas espécies nativas não desapareçam silenciosamente sob a sombra das nadadeiras listradas do invasor. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/03/25/uma-larva-de-39-mm-encontrada-na-amazonia-acende-alerta-de-invasao.ghtml


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